segunda-feira, 18 de maio de 2009

Um dedal de saudade

Sento-me no canto, no escuro e, de olhos fechados, fico em silêncio esperando o amanhã.
A madeira range inesperadamente, reagindo ao abraço do vento e, sorrindo, digo-lhe olá...
Sim, falo com a madeira no silêncio, completamente nu, sentindo-a tocar o meu corpo todo. Uno-me com ela porque sinto que somos parte da mesma forma de ser. Ela madeira, eu Terra.
A madeira exótica com que decorei a casa, não fala como as madeiras das outras casas. Fala em silêncios, em respostas ao vento que a faz tremer, fala em olhares. Sinto-me olhado nesta casa que criei, sinto-me envolvido por ela.
Pego o manto com que antes me cobria de certezas e tento remendá-lo. Acaricio-o com as mãos, num gesto de agradecimento por me ter protegido tantas vezes da nudez que é amar e analiso os buracos, um a um, feridas de uma batalha perdida.
A janela deixa entrar os últimos raios de sol do dia em que perdi o meu medo, do dia em que o meu manto não foi forte o suficiente para me esconder do que temia sentir. Já passou, penso, e agora?
Agora, nada será como dantes.
A madeira fez a casa que está a mudar a minha vida, eu construí-a com as minhas mãos.
O mar não é mais um eterno desconhecido. Tem cheiro, voz e olhar. Despede-se de manhã, recebe-me à noite.
Não tenho mais necessidade de mantos nem solidões sem fim. Tenho necessidade de me entregar e coser nas linhas que escrevo a minha história. Tenho a vontade de não mais perder os comboios que nas suas linhas passaram por mim.
Tenho comigo as linhas do caderno onde me vou escrever, com um dedal de esperança para me proteger das noites frias da distância.
Hoje, deitado na madeira, sem roupas, sem medos, tenho para mim a certeza que o hoje é apenas um prelúdio do amanhã.

6 comentários:

Jojozinha disse...

escreves muito, muito bem.
parabens! da gosto!

Ana disse...

"Cada dia que passa é uma página do livro que nos compete escrever" diz um amigo meu.

E tu só tens de pegar nesse teu caderno e escrever o teu dia, inventar a tua história, ser dono e senhor do guião que conta a tua vida. Não deixes que ninguém a escreva por ti!

beijosss

Sanxeri disse...

As saudades apoderam-se de nós com uma força... Há dias em que me sinto dorida de tanto sentir falta.

Menino do mar disse...

Jojozinha:
Obrigado... assim ico envergonhado :)

Anocas:
As folhas são de papel reciclado, custa mais a absorver a tinta...

Sanxeri:
Doi te tanto sentir falta que até adormece os sentimentos... enfim... um dia... :)

omniavincitamor disse...

Se conseguires escrever nas linhas do caderno da tua Vida da mesma forma maravilhosa que escreves nas linhas imaginárias deste blog, vais no bom caminho!

Não te refugies por baixo do manto esburacado onde te tens escondido e abre-te ao mundo, às novidades que aparecem no teu caminho, às coisas belas da vida!

;)

Menino do mar disse...

Omnia:
E a vida tem tanto de belo :)