domingo, 7 de junho de 2009

Regresso


Regressei hoje, logo pela manhã, àquele promontório perdido no meio da rebentação, onde nos beijámos pela última vez. Entre gaivotas e sons do mar deixei que fosses de novo a minha companhia e senti, juro que senti, que me abraçavas como naquela tarde que parece hoje um país distante.
Sentei-me na rocha, com os pés no ar, e tirei a folha de papel do bolso do blusão verde em que, por vezes, ainda sinto o teu cheiro. Da camisa tirei a caneta de pele de crocodilo, de tinta permanente, qual pena eterna nos dedos de um escritor clássico, e deitei-me a escrevinhar o que de mais clássico há no sentir, o amor, o amor impossível, o amor desejado, sonhado por ambos, mas impossível de concretizar.
Escrevi três linhas, talvez nem tanto e senti o teu sussurro ao meu ouvido, nada temas disseste-me, estou aqui, sempre estarei aqui. Virei-me de sorriso no rosto e olhos ansiosos mas tu não estavas. Percebi então que me tinhas sussurrado com a alma, com o sentimento, e o tinhas feito directamente na minha, por isso não te podia ver, apenas sentir. Independentemente da distância que afasta os corpos, estiveste ali comigo, e então abracei-te de novo, beijei-te de novo e pedi-te de novo que não me deixasses.
Adoro a forma como os nossos lábios se encontram, não sofregamente, mas num beijo de paixão calma, intensa, de saudade que nunca morre.
Adoro que me beijes com o teu olhar apaixonado, adoro que me faças sentir que também tu desejas que o tempo pare e Terra deixe de girar quando estamos juntos.
No nosso mundo, seja ele terreno ou apenas de sonho, somos reis do nosso sentimento, imersos em toques, olhares, sabores e todas as cores do arco-íris. Não há mais ninguém, mais nada, não há estações do ano no nosso mundo, nem dia, nem noite.
Por isso, hoje regressei ao nosso reino, e sei que também lá estiveste, num sopro de vento, no bater de asas de uma gaivota, numa nuvem efémera mas que consegue ocultar o sol, numa flôr que resiste estóicamente à maresia que verga falésias.
Hoje estiveste lá, estivemos lá e no nosso mundo louco fomos felizes.

9 comentários:

Hermione disse...

muito bonito. conheço uma frase que diz 'voltamos sempre ao lugar onde fomos felizes'.

Gingerbread Girl disse...

Talvez seja um amor vivido num plano paralelo.

Muito bonito. ;)


*

Delirius disse...

Liiiinda, a tua carta de amor!
Beijo, menino do mar.

sakura disse...

Lindo. Gostei muito...mas não me revejo na história, na parte de voltar a estar de novo com uma mesma pessoa. A minha história de amor foi linda. Foi muito boa enquanto durou, mas acabou.
Beijo da *flôr*

Menino do mar disse...

Hermione:
Eu conheço uma do Rui Veloso, "nunca voltes ao lugar onde já foste feliz" :)

Ginger:
Sim, é quase isso :)

Delirius:
O amor é lindo :)

Flôr:
A maior parte das coisas que escrevo, são exercícios criativos, baseados nalguma verdade, mas na sua maioria em sonhos e desejos.
Beijo

Bruxinha disse...

Adorei :)

Texto muito profundo sentido, posso dizer lindo :)

Menino do mar disse...

Bruxinha:
Obrigado, é profundo como o amor em mim :)

Daisy Maria disse...

no mínimo? perfeito. demasiado :$

Anna disse...

Absolutamente encantador... Sejam pedaços de fantasia, imaginação ou realidade o teu ponto de partida, o resultado é excelente!

"...nada temas disseste-me, estou aqui, sempre estarei aqui." Mas, de repente, abri os olhos e não estavas... Afinal não ficaste...

Suponho que o que fica realmente são os lugares, as histórias, os momentos... esses que nos fazem fechar os olhos e sentir tudo novamente...