sábado, 5 de junho de 2010

Un jour...


Não seriam mais que oito horas na manhã, pois apesar de quente, o sol ainda se anunciava.
Abri as janelas de par em par, convidando o dia a entrar nesta casa onde as paredes continuavam vazias, apesar dos quadros que as cobriam e dos aromas que invadiam altivamente todas as divisões após uma fuga inevitável do forno quente. O bolo estava quase pronto e o café pingara a última gota do filtro, criando anéis concêntricos perfeitos na cafeteira meia de café.
Controlando a ansiedade que ameaçava apoderar-se de mim, tirei a caneca, que pus suavemente sobre a mesa, onde já a esperava o guardanapo vincado.
Tirei o bolo do forno, desta vez sem me queimar. Desenformei e cortei uma fatia que, parecendo-me pequena, fiz acompanhar de outra.
Sentei-me por fim, já inebriado pelos aromas e sabores-promessa que a nossa mente tem a admirável capacidade de antecipar com imagens tão sugestivas que acreditamos, por vezes, poder trincá-las.
Era uma manhã igual a tantas outras e, como tal, deixei-me levar em pensamentos, enquanto me deliciava com o bolo de maçã e o café acabado de fazer, sem açúcar, amargo, forte, intenso, como a vida deve ser. Como a vida me habituara a ser.
A solidão não me assustava. Aprendera a gostar do silêncio característico das casas de uma só alma.
A saudade sim. Essa era a sombra que pairava no último rodar de chave quando partia pela manhã, e me esperava de braços abertos ao primeiro ligar de interruptor, quando, a altas horas, voltava do trabalho.
Nunca vivemos verdadeiramente sós. Nunca nos deitamos na cama sem uma recordação, sem uma sensação do que já vivemos. Nunca esperamos realmente por alguém, porque esse alguém já vive em nós, tenha ele acontecido no passado, ou seja apenas fruto da nossa imaginação. Assim, a solidão acaba por ser irreal, sobrevalorizada, um medo sem razão de ser.
Eram quase horas de começar mais um dia. Ia até à praia, ver o mar, sentir o cheiro, afogar a saudade e esperar, como esperava todos os dias.
Levantei-me e encalhei no gato que mirava o aquário. Não me zanguei com ele, afinal de contas, todos temos o direito a sonhar, a desejar algo proibido.
Saí para a rua e assim começou mais um dia.

7 comentários:

Vani disse...

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH apetece-me café com bolo de maçãaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!


Vim da praia agora ^_^

Kikas disse...

como eu adoro a maneira como consegues descrever tão bem as coisas. assim, à tua maneira :)

S* disse...

"café acabado de fazer, sem açúcar, amargo, forte, intenso, como a vida deve ser. Como a vida me habituara a ser."

Já te li, já me perdi na blogosfera e deixei de te ler. Mas é por frases como estas que volto a ler-te. :)

sakura disse...

Que texto lindo, amor.
Consigo ver-te no nosso ninho. Consigo imaginar cada pormenor, cada sensação que descreves. Consigo sentir. Principalmente as saudades. Essas saudades que são tão reais...como as saudades que sinto de ti.
Continuas a escrever de uma forma encantadora, que prende até à última linha. Não desistas desse dom.

Amo-te muito.
Flor

Sofia disse...

Muito bonito**

For you disse...

Marinheira de primeira visita ... fiquei deliciada com a viagem que atravessei nas tuas palavras... até breve!

Cátia disse...

Andava por aqui a ler uns blogs e encontrei o teu. Gostei muito deste texto e de outros posts que fui lendo."Nunca vivemos realmente sós". Muito verdade!