quinta-feira, 13 de maio de 2010

A crise

Após passar uns dias praticamente alheado do mundo, não tendo sequer tempo de festejar convenientemente a vitória do nosso Benfica, nem a visita do Papa Joseph "Rezinga", vejo-me forçado a comentar a recentes medidas de austeridade que, ao que tudo indicada, nos vão cair em cima forte e feio.
Não quero contudo alongar-me demasiado, nem perder-me em explicações monótonas de porque é que no meu entender se tratam de medidas erradas e pouco justas. Quero simplesmente dizer que o mal está na raiz. E a raiz não é de hoje, tem séculos. Começou como uma pequena semente no início do século XIX, altura em que foi criada a primeira constituição portuguesa que, por seu lado, veio dar origem a um governo de monarquia constitucional que abriu portas ao surgimento de um grupo, inicialmente pequeno, os políticos.
Ora, desde esta altura que o país é deles. Não fomos nunca um poder do povo (conotações marxistas à parte). Não o fomos na monarquia absolutista, nem na constitucional, nem na primeira república, ditadura, democracia... Não somos, nunca o fomos. Somos seguidores de vontades deste grupo de interesses que servem os seus próprios interesses.
O vislumbre que o 25 de Abril proporcionou, não o aproveitámos. Os que antes diziam "isto é meu" e metiam ao bolso, foram substituídos pelos que diziam "isto é nosso" mas continuavam a meter ao bolso. O pós 25 de Abril foi mais do mesmo. Os ricos a serem cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.
Como dizia um filósofo francês cujo nome não me recordo, A ditadura diz "cala-te", a democracia "bem podes falar".
Este é, provavelmente o texto mais revoltado que alguma vez escrevi, mas não consigo calar a minha indignação. Estas medidas de austeridade vão cair directamente em cima de nós que já é quem mais paga pela crise. Pagamos no dia a dia, no sofrimento, na luta, no resignar a más condições de trabalho porque se nós não o fizermos, ouvimos logo um "há quem não se importe de fazer".
Não vejo solução para isto, nem tão pouco soluções para reduzir o défice, no entanto, acredito que estaríamos mais perto da solução se surgisse alguém mais humano, verdadeiramente preocupado com os destinos do país, bem como com o bem-estar das pessoas. Alguém que compreendesse que a justiça social aumenta a produtividade. Cidadão feliz e satisfeito, que sinta que os mais ricos pagam mais e os pobres menos, que cada um, sem excepção, paga a sua parte, e que veja para onde vai a sua parte, que sinta que vale a pena o sacrifício, e veja no seu dia a dia a aplicação dos seus impostos, é um cidadão mais solidário.
Com toda a certeza que não estaríamos todos felizes, mas seríamos uma sociedade mais justa, mais solidária, e isso dar-nos-ia a coesão de necessária para fazer face às adversidades. Uma sociedade deve ser uma família e esta onde vivemos não o é. Somos apenas um rebanho de ovelhas desgarradas, tentando cada uma sobreviver por si.
Como já dizia o Eça, "os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente e ambos pela mesma razão".

7 comentários:

Ana disse...

"Alguém que compreendesse que a justiça social aumenta a produtividade"

Esta tua frase diz tudo. Por isso é que acho piada quando vêm algumas alminhas dizer que "se trabalhassem mais e reclamassem menos, o país não estava assim".

Mas quem é que tem vontade de trabalhar, de produzir alguma coisa, de se esforçar, quando sabe que o fruto desse esforço só vai encher os bolsos aos outros? Quem é que consegue ter espírito de sacrifício, quando esse mesmo sacrifício só cai em cima dos que menos têm? O que é que o governo faz para que alguém se sinta motivado a arregaçar as mangas e tentar dar a volta a isto?

Sinceramente, acho que o português até reclama é muito pouco para as condições que lhe dão. Ou melhor, que não dão.

Vani disse...

REVOLUÇÃO!!!!!!!!! Estamos à espera do quê????????

Fresco_e_Fofo disse...

E está aqui tudo escarrapachado.
Nem é preciso irmos para teorias marxistas.
Foi uma Europa social a que se ergueu no pós-guerra.
É esta Europa anti-social que nos levará, mais dia, menos dia, a novas guerras.
É só a fome começar a apertar!!!

Kikas disse...

ora nem mais. se há assunto pelo qual ainda não me interesso muito é por política.. no entanto, sei ver que o que eles estão a fazer é prejudicar quem trabalha e beneficiar quem não faz nenhum da vida e vive à custa dos outros. pelo menos se não é, parece-me! é que uma coisa é quem não tem mesmo recursos nenhuns, que necessita mesmo.. outra coisa, são os que não trabalham porque não querem.

anaferro disse...

À parte todas as raízes da política do nosso país, o povo poderia queixar-se se usasse a única arma que tem e que não usa de todo. Como se diz cá na minha terra, é tudo uma cambada de morcões que no dia das eleições vai para a praia ou passear para o centro comercial. E aí damos poderes para que façam de nós o que quiserem. Podia não ser solução, até porque este sistema, seja qual for a cor política, está viciado. Mas é a única arma que temos. E se a usássemos com tradição, podia ser que hoje tivéssemos mais legitimidade (e vontade) para sair à rua.

Quando o povo acordar deste adormecimento de futebol e missa, já está. E sairão sondagens, quando muitas famílias já nem tv terão para ver a vergonha que somos, e o nosso caro primeiro ministro continuará à frente.

A solução para baixar o défice é esta, é o povinho, que já sobrevive, arrastar-se e desunhar-se para pagar as contas e viver com alguma dignidade. E amanhã estamos todos a aplaudir o grande feito dos engravatados que foi contornar a crise. Porque não há mais solução, estando na União Europeia onde não podemos ter ao dispor instrumentos de política monetária que ajudariam, e ainda temos que cumprir com critérios que estão feitos à medida de uma amalgama de países dos quais nos destacamos pela negativa.

Eu apostava mais numa mudança de mentalidades no geral, não apenas na classe política. Porque se dão a isto o nome de democracia, nós somos mais que eles e nós teríamos uma voz para gritar. Se assim quiséssemos. Mas não queremos.

As taxas de abstenção são uma vergonha. E teimamos em pôr as culpas neles, não vendo que não fazemos tudo o que está ao nosso alcance para mudar isto. A porcaria que temos de escolha pode não ser muito melhor que a que estava no poder, mas mudar e o povo fazer-se ouvir nunca seria pior do que já estava a ser. E baixava egos desta gente a quem efectivamente damos legitimidade para nos ir aos bolsos como está a acontecer.

Saliente-se que não sou de partido algum. Sou pela mudança, especialmente, pela mudança de mentalidade deste povo que precisa de uma injecção de auto-estima e de saber posicionar-se numa sociedade evoluída como pretendemos ser. O «deixa andar» de uns e o «chico espertismo» de outros não combina muito com o que desejamos ser.

Miguel disse...

Excelente texto.

Faço minhas também as palavras da anaferro...

Mas, na minha opinião, isto está tão inquinado que não há volta a dar-lhe a não ser que surja alguém que nos surpreenda a todos... e trabalhe mesmo para mudar isto...

Mas parece-me mais fácil sair o euromilhões...

Miss Kin disse...

Sem ter muito mais a acrescentar, só quero dizer que me parece que ainda está para nascer político que não se corrompa, seja com poder, seja com negócios e que mesmo que os de topo até tenham boas intenções, elas vão acabando por se diluir na escada que vem até nós...